Quarenta e quatro anos depois da morte de Randy Rhoads, uma pergunta continua fascinando fãs de Ozzy Osbourne:

O que Randy faria se tivesse sobrevivido ao acidente de 19 de março de 1982?

Continuaria como guitarrista de Ozzy?

Formaria sua própria banda?

Abandonaria definitivamente o rock?

Ou trocaria temporariamente os grandes palcos por uma universidade para mergulhar no estudo da guitarra clássica?

Bob Daisley voltou ao assunto em uma nova entrevista e foi categórico em um ponto: Randy realmente pretendia sair da banda de Ozzy.

Mas isso não significava, necessariamente, abandonar o rock para sempre.

Daisley, baixista e um dos principais parceiros criativos dos dois primeiros álbuns solo de Ozzy, afirmou que Randy estava determinado a mudar de caminho.

Segundo ele, o guitarrista queria deixar a banda, viajar para a Europa e aprofundar sua formação acadêmica em música.

Daisley acredita que Randy provavelmente teria concretizado esse plano.

Ao mesmo tempo, rejeita a ideia de que isso significaria o fim de sua carreira no rock.

Na visão do baixista, Randy poderia ter interrompido as turnês por algum tempo, estudado música clássica e posteriormente retomado a carreira através de um álbum solo ou até de uma banda própria.

Essa visão não surgiu agora.

Há mais de uma década Daisley já dizia que Randy estava cansado da situação em torno da banda de Ozzy e queria dedicar mais tempo ao violão e à guitarra clássica.

Aqui a história fica ainda mais interessante.

A paixão de Randy por música clássica não era uma curiosidade passageira.

Sua mãe, Delores Rhoads, era professora de música e administrava a Musonia School of Music, na Califórnia.

Randy havia crescido cercado por instrumentos e educação musical.

Mesmo já sendo uma estrela internacional, continuava procurando professores durante as turnês e estudando sempre que tinha oportunidade.

Relatos de sua família indicam que ele pretendia retornar aos estudos formais e buscar uma formação acadêmica em música clássica.

Sua irmã Kathy Rhoads contou recentemente que a mãe já havia começado a procurar informações para que Randy estudasse na UCLA. Segundo ela, ele queria voltar para casa e buscar um mestrado ligado à música clássica.

Um depoimento antigo atribuído à própria Delores também menciona consultas à UCLA e à USC, com a possibilidade de Randy posteriormente realizar estudos avançados de guitarra clássica na Europa.

Isso ajuda a explicar por que Daisley menciona Europa, enquanto outras fontes falam principalmente em UCLA.

É possível que ambas as coisas fizessem parte de um plano mais amplo.

Talvez a evidência mais importante venha do próprio Ozzy Osbourne.

Em entrevista anos depois, Ozzy contou que, durante uma das últimas viagens de ônibus com Randy, ouviu do guitarrista que ele queria deixar o rock e estudar música clássica.

Ozzy se surpreendeu.

Randy explicou que já havia alcançado sucesso no rock e queria estudar na UCLA.

Ozzy respondeu com seu humor característico que, no ritmo em que a carreira estava crescendo, Randy poderia acabar comprando a própria universidade.

A lembrança de Ozzy confirma pelo menos o núcleo da história:

Randy estava pensando seriamente em estudar música clássica e reduzir ou abandonar a rotina do rock naquele momento.

Rudy Sarzo, amigo de Randy desde os tempos do Quiet Riot e posteriormente baixista da banda de Ozzy, também confirma essa ambição.

Segundo Sarzo, Randy queria voltar a estudar e obter um título avançado em música.

Para ele, o guitarrista estava disposto inclusive a abrir mão da condição de estrela para perseguir aquilo que considerava seu verdadeiro desenvolvimento como músico.

Sarzo diz que Randy não estava interessado apenas em fama.

O objetivo era continuar evoluindo.

Essa característica ajuda a entender por que Randy Rhoads era tão diferente de muitos guitarristas de sua geração.

Enquanto outros músicos buscavam contratos maiores, arenas maiores e mais exposição, ele continuava estudando acordes, escalas, composição e técnica clássica.

Mas existe outro elemento nessa história que não pode ser ignorado.

A formação que gravou “Blizzard of Ozz” e “Diary of a Madman” não sobreviveu intacta.

Bob Daisley e Lee Kerslake foram afastados após a gravação de “Diary of a Madman”.

Rudy Sarzo e Tommy Aldridge assumiram baixo e bateria para a fase seguinte.

Daisley sustenta há décadas que Randy não ficou satisfeito com essas mudanças.

Segundo ele, a química inicial havia sido construída entre Ozzy, Randy, Bob e Lee, e a transformação daquele núcleo em uma banda centrada exclusivamente na figura de Ozzy alterou a dinâmica interna.

Lee Kerslake chegou a afirmar que Randy cogitou sair quando soube da demissão dos dois.

Segundo Kerslake, ele próprio teria aconselhado Randy a permanecer e aproveitar a oportunidade que tinha diante de si.

Daisley acrescentou recentemente outro elemento delicado à narrativa.

Para ele, a relação entre Ozzy e Randy já não era tão próxima quanto no começo da parceria.

O baixista afirma ter ouvido de músicos que permaneceram no grupo que existiam tensões durante o período final.

Aqui, porém, é importante separar fato comprovado de relato indireto.

Daisley não estava mais na formação em turnê quando Randy morreu.

Parte das histórias sobre os últimos meses chegou a ele por meio de Tommy Aldridge, Don Airey e outras pessoas ligadas ao grupo.

Essa é provavelmente a parte mais controversa de toda a narrativa.

Daisley já afirmou que Tommy Aldridge teria contado a ele que Ozzy reagiu muito mal ao descobrir que Randy queria sair.

Segundo a história relatada por Daisley, Ozzy teria inclusive agredido o guitarrista.

Mas o próprio Daisley ressalvou que não testemunhou o episódio.

Portanto, essa informação deve ser tratada como aquilo que realmente é: um relato de segunda mão, e não um fato documentado por alguém que estava presente.

Isso é importante porque, ao longo das décadas, essa história foi repetida tantas vezes que acabou ganhando aparência de certeza.

Não é.

Nem mesmo entre os familiares de Randy existe uma interpretação totalmente uniforme.

Kathy Rhoads afirma que o irmão havia dito a Ozzy que estava cansado de fazer turnês e queria voltar para estudar.

Já Kelle Rhoads, irmão de Randy, contestou anteriormente versões segundo as quais o guitarrista pretendia romper completamente com Ozzy.

Segundo essa interpretação, Randy pretendia parar de excursionar por algum tempo para estudar, mas poderia continuar trabalhando musicalmente com Ozzy posteriormente.

Essa diferença muda bastante o sentido da história.

Talvez a pergunta correta não seja:

“Randy estava deixando Ozzy?”

Mas:

“Randy estava deixando as turnês?”

Outro episódio costuma aparecer nas reconstruções daquele período.

Ozzy planejava gravar um álbum ao vivo.

Randy não demonstrava entusiasmo pelo projeto.

Rudy Sarzo afirma que Randy inicialmente recusou participar daquilo que depois se tornaria “Speak of the Devil”, pois preferia seguir em frente criativamente em vez de voltar ao repertório antigo.

Segundo Sarzo, houve forte tensão, mas Randy posteriormente concordou em cumprir compromissos antes de deixar a estrada.

Depois da morte de Randy, o projeto acabou tomando outra forma e foi gravado com Brad Gillis na guitarra.

Existe uma enorme ironia em toda essa história.

Quando Randy começou a considerar outra direção para sua vida, ele já havia feito algo extraordinário.

Ozzy Osbourne havia sido demitido do Black Sabbath em 1979 e atravessava um dos períodos mais difíceis de sua vida.

A formação construída com Randy Rhoads, Bob Daisley e Lee Kerslake mudou completamente esse cenário.

“Blizzard of Ozz”, lançado em 1980, apresentou músicas como:

“Crazy Train”.

“Mr. Crowley”.

“I Don’t Know”.

“Goodbye to Romance”.

“Suicide Solution”.

Um ano depois veio “Diary of a Madman”.

“Over the Mountain”.

“Flying High Again”.

“You Can’t Kill Rock and Roll”.

“Believer”.

“Diary of a Madman”.

Em apenas dois álbuns, Randy ajudou Ozzy a construir uma identidade completamente independente do Black Sabbath.

Randy nunca teve oportunidade de decidir qual dessas possibilidades seguiria.

Na manhã de 19 de março de 1982, durante uma parada da turnê na Flórida, ele entrou em um pequeno avião pilotado por Andrew Aycock.

A bordo também estava Rachel Youngblood.

Durante voos rasantes sobre a área onde o ônibus da banda estava estacionado, uma das asas atingiu o veículo.

O avião perdeu o controle e caiu.

Os três ocupantes morreram.

Randy Rhoads tinha apenas 25 anos.

Daisley acrescenta uma possibilidade particularmente fascinante.

Ele afirma que existiam planos para que ele retornasse e participasse de um terceiro álbum com Ozzy, Randy e Tommy Aldridge.

Esse disco seria trabalhado em 1982.

A morte de Randy tornou tudo impossível.

Mais tarde, Ozzy seguiria adiante e lançaria “Bark at the Moon”, em 1983, com Jake E. Lee na guitarra.

O álbum marcou definitivamente o início de uma nova fase.

Mas existe, escondido na história de Ozzy, um disco que nunca chegou a existir:

o possível terceiro álbum de Ozzy Osbourne com Randy Rhoads.

Daisley já confirmou que havia sido procurado para voltar às sessões antes da tragédia.

Provavelmente não existe uma resposta definitiva.

E talvez Bob Daisley esteja certo justamente nesse ponto.

O fato de Randy desejar estudar música clássica não significa necessariamente que pretendia abandonar para sempre a guitarra elétrica.

Sua própria trajetória mostra o contrário.

Randy já estava fundindo elementos de música clássica com hard rock e heavy metal.

Seu trabalho em “Mr. Crowley”, “Diary of a Madman”, “Revelation (Mother Earth)” e outras composições demonstra justamente essa busca.

Daisley acredita que, depois dos estudos, Randy poderia ter feito um álbum solo ou criado uma banda própria.

Sua mãe imaginava algo semelhante: uma combinação ainda mais profunda entre música clássica e rock.

Quando colocamos lado a lado as memórias de Bob Daisley, Ozzy Osbourne, Rudy Sarzo e da família Rhoads, surge um cenário muito mais interessante do que a simples história de que “Randy queria abandonar Ozzy”.

Randy estava cansado da rotina de turnês.

Queria estudar seriamente música clássica.

Sua família já pesquisava universidades.

A relação dentro da banda havia mudado.

Ele não parecia interessado em passar o resto da vida repetindo a mesma fórmula.

Mas não existe evidência sólida de que estivesse disposto a abandonar definitivamente o rock.

Talvez Randy não estivesse fugindo da música que havia criado.

Estivesse procurando a próxima etapa dela.

Se Randy Rhoads tivesse sobrevivido, teria apenas 69 anos em 2026.

É perfeitamente possível imaginar uma carreira inteira depois de “Diary of a Madman”.

Um terceiro disco com Ozzy.

Uma pausa para estudar.

Uma carreira solo.

Uma banda própria.

Composições para orquestra.

Um retorno ao rock anos depois.

Ou alguma coisa completamente diferente.

Nunca saberemos.

O que sabemos é que Randy Rhoads parecia enxergar a fama de uma maneira bastante incomum.

Quando praticamente qualquer guitarrista de 25 anos teria feito de tudo para permanecer ao lado de uma das maiores estrelas do rock do planeta, Randy estava pensando em voltar para a escola.

Talvez isso diga mais sobre ele do que qualquer solo.

Para Randy Rhoads, ser famoso nunca pareceu suficiente.

Ele queria ser um músico melhor.

E foi justamente quando começava a imaginar o próximo capítulo que sua história terminou.